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07 de Novembro de 2006

Reserva Natural Integral das Ilhas Selvagens assinalou 35 anos a 29 de Outubro


“Tão perto e tão longe”


Texto e fotos: Cristina Costa e Silva - Jornal da Madeira

O fim de tarde caía apressadamente na cidade de céu azul e a tempestade rumava Atlântico abaixo, depois de ter deixado o Funchal. No cais de pesca do porto, uma comitiva representativa das três áreas directamente envolvidas na vida das Ilhas Selvagens prepara-se para assinalar os 35 anos da criação da Reserva Natural Integral, que se assinalam nesse 29 de Outubro. Enquanto a noite cai e os relâmpagos parecem troçar de nós, mesmo à proa, há quem faça muitas contas para o pouco tempo que a comitiva permanecerá em terra. Mesmo que isso seja depois de horas a fio rumo ao paralelo 30. Aquele que fica para lá do arco-íris, cheio de “jardins probidos”, como diz Paulo Gonzo, que acabam, de qualquer forma, por fazer lembrar o tema dos “Hands on Approach”, “Tão Perto, Tão Longe”. Um local onde vale a pena ir…


No dia em que se assinalou a passagem do 35º aniversário da criação da Reserva Natural Integral das Ilhas Selvagens, uma comitiva que representava as três áreas mais envolvidas na vida daquele santuário partiu, rumo a sul, a bordo do balizador da Armada. Depois da tempestade da véspera, na madrugada de 29 de Outubro, o mar estava de feição e Coelho Cândido, comandante da Zona Marítima da Madeira, Susana Fontinha, directora do Parque Natural e o casal Francis Zino, estudioso da vida das cagarras há muitos anos assinalaram, de forma quase simbólica, a passagem de mais um aniversário da defesa do património regional e nacional. Com relâmpagos pela proa e vento pela pôpa, o dia acabou e a noite chegou, como chegaram também as milhas sulcadas pelo “Schultz Xavier”, o navio onde fomos recebidos.

A vida a bordo seguia quase como um relógio, apesar de querermos que o tempo pare quando se navega com um mar que nem deixa pensar que se está quase em Novembro. Não há dificuldades para jantar, nem para manter uma conversa animada depois, na câmara de oficiais, onde se desenrolam episódios da vida das Selvagens e onde parece haver uma orgulhosa e inevitável cumplicidade entre todos os que partiram, horas antes, rumo a um destino que conhecem tão bem.

A noite, essa, leva os corpos às camas, onde manter o equilíbrio nem é difícil, pois a vaga que acaricia o casco de quase 70 metros do “Schultz” não vai projectar ninguém contra uma das anteparas. Na realidade, a comemoração destes 35 anos da reserva mais antiga do Parque Natural, não podia começar de forma mais favorável.

Os mistérios e os sorrisos

As benesses dadas pelos deuses, que continuam a levar a tempestade à proa, trazem o amanhecer, já com o recorte da ilha ao fundo.

O café quente parece contrastar com o frio horizonte onde se vê a Selvagem Grande banhada pela chuva e os Vigilantes da Natureza começam a aprontar as caixas e os baldes que trazem para uma estada de algumas semanas. Não se sabe quantas, porque os que lá estão, chegaram a 20 de Setembro.

O sorriso de Maurício, quando se aproxima finalmente do navio, é quase de alívio, porque nesse dia tem a certeza de que vai voltar a casa, quarenta dias depois de ter partido. É certo que todos eles têm a correr-lhe nas veias o espírito de missão, que os leva, uma e outra, vez a descer as águas do Atlântico, que os faz, no fundo, ser felizes por poderem viver parte de um ano num autêntico paraíso.

As Selvagens são um mistério, um mistério quase inexplicável e que só se entende quando se pode pisar aquele solo quase sagrado, cheio de jardins proibidos. De locais onde não se pode pisar, de trilhos que são os únicos onde se pode percorrer as distâncias para alcançar mais uma ou outra riqueza.

Tudo isso permite que cada um aproveite o dia à sua maneira e depois do transporte da comitiva para a rampa da Baía das Cagarras, o casal Zino segue com Carlos Silva para a operação de anilhagem dos juvenis, complementando o trabalho feito por outros entusiastas daquele projecto comum a todos.

No quintal da casa, na rampa, nas rochas, a pequena “Selvagem”, a cadela que faz parte, desde há um ano, da vida dos vigilantes, brinca com todos os recém-chegados como se os conhecesse desde sempre, enquanto na baía o “Schultz” começa a afastar-se em direcção à Selvagem Pequena, para mais uma acção de fiscalização nas nossas águas terrirotirais.

Susana Fontinha e Coelho Cândido começam a subir a escarpa, pelos trilhos, em direcção ao topo. Cada um vê a Selvagem de forma diferente, mas aquele é um dia em que o comandante da Zona Marítima da Madeira tem a oportunidade de ser acompanhado pelos protagonistas de todos os momentos da vida daquelas ilhas. Por um lado, há os vigilantes, que o inteiram do “modus operandi” dos espanhóis, que insistem em pescar nas nossas águas. Questiona, aponta possíveis soluções, ouve as descrições de quem, variadas vezes, tem assistido às cada vez mais sucessivas”invasões”.

Regeneração da flora requalifica a paisagem

O tempo parece parado, ali. E até os juvenis, que nesta altura do ano começam a ser poucos, parecem ter esperado pelo dia em que as visitas se fazem, para mostrar o quanto cresceram. A directora do Parque esclarece as dúvidas de quem está, pela primeira vez, a contactar com aquela realidade de que sempre se ouviu falar. Explica a regeneração das plantas, depois do extermínio dos ratos e dos coelhos, a forma como aparecem, agora, as espécies que pareciam ameaçadas. Como que numa permuta de conhecimentos e experiências, Coelho Cândido abre a porta do farol, permitindo que se alcance o topo e se olhe em volta como se mais nada existisse no mundo.
De vez em quando, olha-se o mar e vislumbra-se a esteira deixada pela navegação do “Schultz”, cada vez mais distante. A investigadora baixa-se e começa a retirar o material para a recolha de amostras. Vai contando o processo natural das coisas, como é feita a pirâmide da flora, como é importante aquela pequena planta na captação e armazenamento de água.

Por favor, não incomode

A curiosidade por ver uma osga da Macaronésia leva a que se levantem algumas pedras e pouco tempo depois a directora do parque tem na mão um exemplar. Literalmente na mão, porque a osga agarra-se pela boca ao dedo de Susana Fontinha e inicia uma dança quase vingativa pela quebra do descanso a que está habituada. Aquelas são, é preciso não esquecer, pequenas felizardas, porque não há por ali quem as mate pelo puro prazer de matar. Nem elas, nem as lagartixas, nem nenhum outro bichinho, bicharoco e afim, naquele leque de nomes difíceis que a directora do Parque pronuncia. O comandante da Zona Marítima da Madeira explica as contas ao aumento da Zona Económica Exclusiva dos espanhóis se as Selvagens fossem canarianas. E neste desfiar de cenários que esperamos que não passem de meras hipóteses, lá se vai caminhando para as duas horas de passeio, com o sol alto e o rasto simultâneo de três jactos deixados no céu azul. Quase como se fosse um erro do desenho aparentemente perfeito da natureza. Enquanto isso, cá em baixo, com os pés bem assentes na terra, o percurso vai sendo feito em direcção ao Chão dos Caramujos, onde as cascas se partem sob os nossos passos, mas onde os ninhos dos calcamares parecem proteger toda aquela paisagem inexplicável de cascas de caracóis, porque quase a toda a volta fizeram centenas e centenas de ninhos.

Selvagem Pequena em lençol de seda

Três horas depois de termos partido e continuando a caminhar em trilhos, para preservar ao máximo a ilha, chegamos à casa dos Vigilantes. A mesa posta para o almoço faz-nos respeitar ainda mais os Vigilantes, porque prepararam uma salada fria para festejar os 35 anos da reserva. Ali, onde as ondas do mar batem cada vez com mais força, vamos ouvindo, ao longe, o motor do balizador e o comandante Silva Rocha alinhava os pormenores do transbordo com os vigilantes através do rádio. Depois de deixar a ilha maior, rumámos à Pequena, pois Coelho Cândido quer saber, pelos vigilantes, como é que se processa a chegada e a saída dos espanhóis. A navegação faz-se cuidadosamente, com os olhos postos nos baixios e na carta, enquanto a tarde continua a cair demoradamente. A Selvagem Pequena, que todos concordam que é mais misteriosa do que a Grande, permanece intocável. Parece fitar-nos, mesmo contemplar-nos e a maresia, que se evapora por cima da rebentação das ondas, envolve-a como se fosse um lençol de seda, mas que deixa ver a carcaça do avião que encalhou há dois anos e o iate que mais recentemente também ali ficou.

Não se põe um pé em terra. Mas os mistérios encerrados prometem permanecer ali, como se naquele cenário faltasse apenas uma mensagem lacrada numa garrafa meia enfiada na areia da pequena praia.

O regresso, que se inicia depois da passagem pelo Ilhéu de Fora, deixa-nos a todos com a sensação de que há histórias que nunca serão descobertas.

A viagem de comemoração dos 35 anos da reserva começa a fazer-se com destino ao Funchal. E porque se trata de comemorar, ate o mar fica, de novo, de pôpa e empurra-nos em direcção ao ponto de partida.

“As palavras que nunca te direi”

Continua a não haver enjôos e a conversa segue na câmara de oficiais depois do jantar. Mais tarde, Francis Zino transfere para o computador os dados recolhidos na Selvagem e aos poucos a sala vai ficando vazia de pessoas, mas sendo invadida pelo som das ondas provocadas pela navegação do balizador. Para trás, ficaram alguns momentos inesquecíveis como a passagem, pela primeira vez, de um aniversário da Reserva com o comandante da Zona Marítima da Madeira e a Directora do Parque Natural na “comemoração” quase simbólica. Na manhã seguinte, já perto do Funchal, o café quente é servido com o nascer do sol em tons de fogo. À proa, milhares de luzes da cidade que deixámos dois dias antes, em vez do frio recorte da Selvagem Grande. Parecemos todos abençoados por poder ter visitado o paraíso que fica “tão perto, tão longe”. Mas cada um de nós sentiu a viagem de forma diferente, cada um viveu o momento à sua maneira e apesar de as Selvagens mostrarem todos os seus encantos a quem as estuda, há a certeza de que as três ilhas encerram segredos que as tornam tão especiais. Talvez fique sempre assim, porque assim se preservam os jardins proibidos. Como se preservam os segredos. Porque, como diz o título de Nicholas Sparks, há “palavras que nunca te direi”.


Cristina Costa e Silva
publicado por Pedro Quartin Graça às 12:48
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Com o relvas à ilharga só pode perder!
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Considero este texto extremamente rico, ao abordar...
Só uma palavra: concordo!
Obrigado pelo seu comentário.PQG
Lembro-me perfeitamente desse dia trágico: a surpr...
É lamentável, cada vez dou-Lhe menos crédito. Mona...
De acordo com os seus pressupostos mas....como diz...
Caro Dr. Pedro Quartin Graça, em obrigação para co...
Muito lhe agradeço a sua atenção! Parabéns!
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