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31 de Dezembro de 2006

O choque do consumo

por Paulo Gaião

2006-12-28 - Jornal "Semanário"

Os portugueses responderam ao choque tecnológico de Sócrates, com um choque do LCD,da máquina Nespresso de George Clooney, do camarão 10/15 de Madagáscar.

O consumismo desenfreado do Natal, num país em profunda crise económica, parece provar que o choque tecnológico sócrático, virado para a eficiência e produtividade, está a ser um fracasso, vencido pelo choque do luxo e da bugiganga, com um efeito muito mais rápido para afogar as mágoas dos portugueses. Em vez de pouparem para investir, por exemplo em formação ou na criação de negócios próprios, só vendo pela frente em 2007 a perspectiva de trabalho árduo, os portugueses gastam tudo em bens de consumo, o LCD, a máquina digital, o Nespresso do George Clooney, o camarão 10/20 de Madagáscar.
Coisas muito pouco árduas, mais para estar de pernil esticado. E os saldos ainda não chegaram. No Natal foram já 2 mil millhões de euros gastos, uma quantia que dava para pagar o aeroporto da Ota, mas nas televisões, nas mil reportagens sobre as compras do Natal, não há bicho careta que não tenha dito que se está a guardar para os saldos de Janeiro. O que pode dar mais um aeroporto da Ota. O governo socialista já leva quase dois anos de funções, o que já era tempo para conseguir algumas mudanças nos hábitos dos portugueses, ainda por cima tomando em conta o ímpeto com que Sócrates entrou em S. Bento para mudar as mentalidades.
Ora, Sócrates pode ser especialista em vergar oposições e corporacões, ter um enorme jogo de cintura e sofisticacão para lidar com Cavaco Silva e entidades independentes mas parece que esbarra em relação aos aspectos mais estruturais e enraizados dos portugueses. Numa altura em que os juros sobem sem parar e em 2007 os preços de vários produtos já têm subidas certas ou anunciadas, os portugueses não só não se retrairam como aumentaram em muito os seus níveis de consumo em relação ao ano passado.
O eleitorado parece que vai ouvindo Sócrates, vai acompanhando as medidas do governo, até concorda com elas, continua a dar maioria absoluta ao PS e a pôr Sócrates nos "top" de popularidade. Sócrates, como é sabido, não se tem cansado de pedir sacrifícios aos portugueses e ainda na mensagem de Natal garantiu que o trabalho árduo era a única alternativa que tinha para oferecer. Parece que o próprio primeiro-ministro se deixa embalar e iludir pelos indicadores que os portugueses lhes vão dando sobre a boa política do governo, ele que se tem revelado um "expert" em cancões de embalar, até com Cavaco Silva, como ficou provado na semana passada, na apresentacão de boas festas do governo ao Presidente da República.
Ora, parece que os portugueses, à boa maneira imprevisível e inconsequente que lhes está no sangue, são capazes de fazer tudo ao contrário daquilo que dizem ou pensam. O que não deixa de ser um bom motivo de reflexão no que se refere à fiabilidade dos resultados das sondagens. As notícias do super-consumismo português, no fundo uma forma parecida de concorrer ao "Guiness" dos países com pior economia mas mais destrambelhados em termos de indicadores de consumo (provas de recorde de que os portugueses são fanáticos) surgiram numa semana em que a Comissão Europeia deu Portugal como mau exemplo a não seguir pelos novos países aderentes à União Europeia, o que é a suprema humilhação para um país que há vinte anos entrou na Europa para convergir com os "grandes" e que hoje batalha por convergir com Chipre e Malta. Também da OCDE chegaram novamente más notícias. Portugal tem o terceiro pior resultado da organização em qualificação profissional, o que se liga, naturalmente, aos dois mil milhões de euros gastos neste Natal em luxos e bugingangas.
Até no Natal Sócrates faz política. Às vezes tem-se a dúvida existencial se Sócrates não está a gozar com o pagode quando faz de Vieira da Silva o pai Natal do ano de 2006, se apresenta a Cavaco a desejar Boas Festas e a dizer que gosta muito de trabalhar com ele e anunciou aos portugueses, em mensagem de Natal, que não há alternativa ao trabalho árduo.A dúvida rapidamente se dissipa quando pensamos em quem é verdadeiramente Sócrates.
Por um lado, o nosso primeiro -ministro faz política como se fosse o CEO de uma grande empresa. Por outro lado, Sócrates mostra cada vez mais os seus dotes na arte do condicionamento político, com jogadas muito sofisticadas, florentinas. Esta mistura é perigosa, fazendo de Sócrates um adversário com quem dificilmente se pode contemplar. Se se dá a mão, Sócrates consegue rapidamente alcançar o braço todo, o que deveria ser visto como um aviso sério para Cavaco. O facto de Vieira da Silva ganhar o troféu de camarada com melhor desempenho do ano institucionaliza uma prática que é um incentivo para que no próximo ano os ministros trabalhem com vista a serem o Pai Natal de 2007.
No jantar de Natal do próximo ano, lá estará Sócrates a anunciar o nome do contemplado, interpretando, como ele disse na semana passada, o sentimento fiel dos outros ministros. Tudo é feito como mandam as regras do marketing empresarial, de tal forma que até impressiona. Este prémio de produtividade aos ministros mostra aos visados quem manda, impedindo quaisquer veleidades. Os ministros podem esforçar-se ao máximo mas o trabalho que prestam não lhes pertence verdadeiramente mas sim a Sócrates.
A ida a Belém do governo em peso, desejando Boas Festas a Cavaco e a frase proferida por Sócrates, certamente interpretando fielmente os sentimentos dos seus ministros, do "gostamos de trabalhar consigo", representa o agradecimento do CEO ao dono da empresa. No entanto, o espírito de Sócrates em toda a cerimónia não deixou dúvidas sobre quem manda verdadeiramente na empresa: ele, claro.
Repare-se que Sócrates não disse a Cavaco que "gostámos de trabalhar consigo" em 2007. O "gostamos de trabalhar consigo" ( sem o acento agudo), pressupõe uma série de premissas. Que Sócrates quer continuar "a gostar de trabalhar com Cavaco". Que para que Sócrates continue a "gostar de trabalhar com Cavaco", o Presidente da República tem de manter, naturalmente, a sua postura cúmplice e colaborante com o governo. O condicionamento político do Presidente da República foi tão óbvio, que até Cavaco, de forma espontânea, se sentiu no dever (e no direito) de advertir que a cooperação institucional de faz no respeito pela separação de poderes. O que pode ter querido dizer que a cooperação institucional, para existir, depende mais de Belém do que de S. Bento. Só para Socrates tomar nota.
PS. Para se ser líder político em Portugal, parece cada vez mais necessário apresentar curriculum em medidas impopulares, para os portugueses, que adoram chicotes, poderem aferir da credibilidade do candidato.
publicado por Pedro Quartin Graça às 00:29
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