Blog pessoal criado em 2003
04 de Janeiro de 2009

IN MEMORIAM DE UM AMIGO COMUM

FRANCISCO FERREIRA GOMES 


Nuno Brederode Santos
Jurista - brederode@clix.pt
O ano de 2008 já estiolava por entre pequenas e rancorosas patetices, quando o Francisco Ferreira Gomes se foi embora daqui. Daqui, do maior aqui que existe. Por azar, foi-se embora horas antes, mas no mesmo dia em que o fez o António Alçada Baptista. Azar nosso, bem entendido, porque a coincidência lhe apagou a partida, mesmo que ele se estivesse bem nas tintas para isso. Mas nós, os seus amigos, teríamos gostado, ao menos, de um breve registo do facto. Três segundos de televisão ou uma soturna local na imprensa. Nada. O Xico que, ainda jovem, incutiu em tanta miudagem universitária algum gosto literário; que fez Direito sem querer ser advogado e, sendo um esteta, arriscou viver como executivo de uma multinacional (em cujo ramo português chegou ao topo). O Xico, cuja "nonchalance" povoou o humor de tanta gente e alimentou pequenas, mas duradouras, tertúlias; e cujas eficácia e entrega levaram Jorge Sampaio a confiar-lhe a direcção da campanha eleitoral para o seu segundo mandato. Esse Xico, o nosso Xico, foi-se como se a pedir licença.

Quando um amigo se vai, a gente olha- -se no espelho. Porque o próprio real é também um espelho, que corrige a imagem que devolve. Conforma-a, se não quisermos dizer que a deforma. Quando o vigor e a pureza nele se miram, o guerreiro vê cansaços e a virgem devassidões. Porque sabemos que não há Dorian Grays que nos roubem tempo ao tempo que já tivemos, nem feições poupadas ao amargo logro em que vivia a madrasta da Gata Borralheira. Mas não podemos impedir-nos de o ter, eliminá- -lo da nossa vida: da casa de banho ao elevador, passando pelo retrovisor do automóvel, ele salta-nos ao caminho, em sucessivas tocaias. E dá-nos o que talvez não queiramos, mas que mais não é do que o produto do que fomos sendo: então uma amizade traída, um desgosto de amor, uma causa sacrificada a circunstâncias menores e até décadas de usos e abusos do que o corpo aguenta, poderiam não turvar os olhos, não talhar sulcos na pele, não levar os cantos da boca à rendição?

Sobre isto (mesmo que por palavras que não estas) conversei longamente com o Xico, durante uma noite castigadora dos nervos dessa campanha eleitoral, numa cervejaria da Rua das Portas de Santo Antão. Uma conversa em que o Xico foi o melhor de si, harmonizando uma imensa tolerância com os pequenos sarcasmos que o salvavam da santidade. As suas observações de homme du monde sobre os gestos, atitudes e intenções que subjazem aos comportamentos individuais, numa máquina política em pleno movimento, podiam rechear, para ilustração, um tratado sobre as pequenices da natureza humana. À visão de quem trazia vida nos bolsos, o Xico acrescentava a lucidez de não querer nada de um mundo que não desprezava, mas que, nos momentos próprios, para o bem e para o mal, tinha escolhido recusar. E a tudo isto acrescentava uma humildade intelectual que - coisa rara - foi aprendendo com a vida: outros, melhor do que eu, o saberão, mas o Xico que retenho da juventude era bem mais assertivo, e menos sábio e relativista, do que aquele que agora se oferecia aos outros.

Depois disso e da vitória, foi uma longa ausência mútua, que só viria a ser interrompida, por generosa iniciativa dele, para um ano e meio de almoços quase, mas só quase, regulares, numa estupenda sucessão que a doença viria, sem aviso, interromper. A partir daí, tudo se cingiu a (creio que) duas visitas, de enorme e recíproco constrangimento, em sua casa. Em que o amigo era, cada vez mais, o que ia restando do amigo; e em que ele, cada vez mais longe, dava mostras de que o sabia muito bem.

Absolvam-me de não me render aos caprichos do calendário, mas, em qualquer síntese do meu 2008, a memória do Francisco Ferreira Gomes estará lá. Este espaço não é um obituário. Mas convenhamos que só a paixão do adjectivo do dia e a volúpia de dissecar as ilusórias entranhas das paramécias da política corrente é que podem explicar o absoluto silêncio que rodeou a morte dele. Porque ele não foi apenas um amigo de todos quantos o mereceram. Foi alguém que, ainda por cima e pelos padrões dessa vulgaridade que é o código de vencedores que se instalou, o foi também. |
publicado por Pedro Quartin Graça às 10:25
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