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22.01.07, Pedro Quartin Graça
A ameaça à classe média leva as pessoas a querer menos Europa
Patrícia Viegas - Diário de Notícias- 22.01.2007
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Michel Rocard
Ex-primeiro-ministro francês
Nasceu em Courbevoie em 1930
Formado em Letras. Também estudou na Escola Nacional de Administração
Primeiro-ministro entre 1988 e 1991
Líder do PSF entre 1993 e 1994
É eurodeputado desde 1994
Antigo primeiro-ministro da França, discípulo de Pierre Mendès-France, o socialista Michel Rocard foi um dos oradores que participaram recentemente numa conferência sobre a Europa, em Paris. "Federalista durante 50 anos", não gosta de admitir que é pessimista, diz ter apenas uma visão "lúcida" do estado actual do projecto europeu. Numa entrevista ao DN, afirma que deixou de acreditar na Europa política, mas que a económica é poderosa e pode, ainda, recuperar o dinamismo.
50 anos após a assinatura do Tratado de Roma a Europa obteve a paz. Qual deveria ser, agora, o objectivo dominante da União Europeia?
O objectivo dominante da UE deve ser o de ter um alargamento bem sucedido e o de melhorar o seu desenvolvimento. Mas, para tal, tem de fazer face a um obstáculo, que é a fraqueza do orçamento europeu, pois ele não permite nem o sucesso do alargamento nem da Estratégia de Lisboa - na procura de uma sociedade poderosa fundada sobre o conhecimento. Estamos numa situação de bloqueio muito grave.
Mas actualmente relaciona-se o bloqueio com a rejeição da Constituição europeia. A questão do orçamento está a ser esquecida?
Tem razão, mas eu não a esqueço, pois considero que é mais grave. A rejeição do projecto de Constituição é um drama, mas, pelo menos, deixa uma dimensão de futuro, enquanto que a opção por umas perspectivas financeiras irrisórias [para o período de 2007-2013] põe em causa a própria existência da União Europeia e é, por isso, muito mais grave.
Escreveu que o assassino da Europa é o Conselho de Ministros...
... Sim... e há 30 anos.
Pode explicar melhor?
Na Europa há quatro organismos e, tirando o Tribunal de Justiça, existem a Comissão Europeia, o Conselho de Ministros e o Parlamento Europeu. A Comissão não tem poder para decidir ou propor, e então é o serviço de execução das decisões do Conselho. O Parlamento não tem iniciativa legislativa. Isto quer dizer que o verdadeiro órgão de decisão é o Conselho. A Comissão e o Parlamento, pela sua forma de funcionamento e nomeação, têm uma verdadeira dimensão europeia. O Conselho não, porque é apenas uma reunião de ministros nacionais que ali vão para defender os interesses dos seus países e os colocam à frente dos interesses da Europa. E, desde há 30 anos, o Conselho de Ministros é um obstáculo absoluto a todo o aprofundamento da integração europeia.
Perante isso, que tipo de Europa lhe parece mais viável: a dos projectos ou aquela que tenta falar a uma só voz, mas que não consegue, absolutamente, chegar a fazê-lo?
Não vejo o problema assim. A ideia que, neste momento, está morta é a de uma Europa enquanto grande potência diplomática e militar que tenha uma voz que é ouvida no mundo sobre problemas não económicos, guerras ou crises, com forças armadas para apoiar a sua visão. Isso não teremos. As forças armadas limitar-se-ão a necessidades humanitárias, a política externa será uma sucessão de acções comuns, votadas por unanimidade. A Europa económica, pelo contrário, existe, é poderosa, mas tem necessidade de ser governada com um pouco mais de precisão e de clareza. Então, o objectivo principal deve ser, agora, o de a Europa se tornar mais consciente e capaz de resolver a sua crise económica e social interna. Há muito desemprego, muito trabalho precário, crescimento fraco, é este o drama. É a ameaça à segurança da classe média que faz com que as pessoas queiram menos Europa e comecem a votar contra ela, como aconteceu na França e na Holanda e, potencialmente, noutros países, como a Alemanha, caso tivessem feito referendos sobre a Constituição. Neste momento, todos os governos europeus têm medo de defender a Europa, por motivos eleitorais internos.
Também acha que a crise de liderança na UE explica esta situação?
Sim, há uma crise de liderança, mas pior é a crise intelectual. Não há consenso sobre a análise das razões que explicam a existência de tais níveis de trabalho precário e de desemprego nos nossos países. E é preciso compreender que quando a classe média tem medo de ser desestabilizada tudo é possível. A desestabilização da classe média é um drama para os políticos. A Europa apenas pode recuperar o seu dinamismo quando responder a este problema. E, uma vez feita a análise, estabelecido um consenso intelectual à volta do problema, é preciso haver liderança para o ultrapassar. Mas não há liderança possível no vazio.
Afirmou que a Europa política está morta...
O projecto constitucional está morto...
A Europa soft power é a melhor via...
Quando falamos de Europa política falamos da possibilidade diplomática, militar, para fazer uma política rápida, decidida por maioria, que fosse eficaz e pesasse no mundo. Isto tornou-se impossível pelo simples facto de que toda a acção de política externa exige a unanimidade, desde o Tratado de Maastricht. Então, o assassínio da Europa política resulta da soma dos tratados de Maastricht, Amesterdão, Nice e, mesmo agora, o projecto de Constituição europeia. Nesta situação, eu observo, por outro lado, uma coisa diferente, que o hard power não é tão eficaz como pensamos, que os Estados Unidos estão envolvidos em políticas sem saída e com maus resultados, que a única coisa satisfatória é a Europa, ela mesma. Isso são coisas que resultam da confiança mútua, da negociação, que relevam da categoria de soft power. Mas não são um substituto.
O que pensa da ideia da chanceler alemã, Angela Merkel, sobre uma aliança atlântica económica entre a Europa e os Estados Unidos?
Eu sou a favor de todas as boas concertações, mas não seremos capazes de reforçar a cooperação transatlântica enquanto não houver um acordo entre os EUA e nós, enquanto eles não tratarem do seu desequilíbrio financeiro, pois a dívida externa norte-americana já ultrapassou um bilião de dólares. É de uma instabilidade terrível. Nós podemos fazer acordos entre países e entre continentes para um futuro mais estável e visível, mas, antes, é preciso resolver esta situação de défice. Acho que é por aí que se deve começar, mas, de qualquer forma, desejo boa sorte à senhora Angela Merkel.
*O DN viajou a convite da Comissão Europeia
Patrícia Viegas - Diário de Notícias- 22.01.2007
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Michel Rocard
Ex-primeiro-ministro francês
Nasceu em Courbevoie em 1930
Formado em Letras. Também estudou na Escola Nacional de Administração
Primeiro-ministro entre 1988 e 1991
Líder do PSF entre 1993 e 1994
É eurodeputado desde 1994
Antigo primeiro-ministro da França, discípulo de Pierre Mendès-France, o socialista Michel Rocard foi um dos oradores que participaram recentemente numa conferência sobre a Europa, em Paris. "Federalista durante 50 anos", não gosta de admitir que é pessimista, diz ter apenas uma visão "lúcida" do estado actual do projecto europeu. Numa entrevista ao DN, afirma que deixou de acreditar na Europa política, mas que a económica é poderosa e pode, ainda, recuperar o dinamismo.
50 anos após a assinatura do Tratado de Roma a Europa obteve a paz. Qual deveria ser, agora, o objectivo dominante da União Europeia?
O objectivo dominante da UE deve ser o de ter um alargamento bem sucedido e o de melhorar o seu desenvolvimento. Mas, para tal, tem de fazer face a um obstáculo, que é a fraqueza do orçamento europeu, pois ele não permite nem o sucesso do alargamento nem da Estratégia de Lisboa - na procura de uma sociedade poderosa fundada sobre o conhecimento. Estamos numa situação de bloqueio muito grave.
Mas actualmente relaciona-se o bloqueio com a rejeição da Constituição europeia. A questão do orçamento está a ser esquecida?
Tem razão, mas eu não a esqueço, pois considero que é mais grave. A rejeição do projecto de Constituição é um drama, mas, pelo menos, deixa uma dimensão de futuro, enquanto que a opção por umas perspectivas financeiras irrisórias [para o período de 2007-2013] põe em causa a própria existência da União Europeia e é, por isso, muito mais grave.
Escreveu que o assassino da Europa é o Conselho de Ministros...
... Sim... e há 30 anos.
Pode explicar melhor?
Na Europa há quatro organismos e, tirando o Tribunal de Justiça, existem a Comissão Europeia, o Conselho de Ministros e o Parlamento Europeu. A Comissão não tem poder para decidir ou propor, e então é o serviço de execução das decisões do Conselho. O Parlamento não tem iniciativa legislativa. Isto quer dizer que o verdadeiro órgão de decisão é o Conselho. A Comissão e o Parlamento, pela sua forma de funcionamento e nomeação, têm uma verdadeira dimensão europeia. O Conselho não, porque é apenas uma reunião de ministros nacionais que ali vão para defender os interesses dos seus países e os colocam à frente dos interesses da Europa. E, desde há 30 anos, o Conselho de Ministros é um obstáculo absoluto a todo o aprofundamento da integração europeia.
Perante isso, que tipo de Europa lhe parece mais viável: a dos projectos ou aquela que tenta falar a uma só voz, mas que não consegue, absolutamente, chegar a fazê-lo?
Não vejo o problema assim. A ideia que, neste momento, está morta é a de uma Europa enquanto grande potência diplomática e militar que tenha uma voz que é ouvida no mundo sobre problemas não económicos, guerras ou crises, com forças armadas para apoiar a sua visão. Isso não teremos. As forças armadas limitar-se-ão a necessidades humanitárias, a política externa será uma sucessão de acções comuns, votadas por unanimidade. A Europa económica, pelo contrário, existe, é poderosa, mas tem necessidade de ser governada com um pouco mais de precisão e de clareza. Então, o objectivo principal deve ser, agora, o de a Europa se tornar mais consciente e capaz de resolver a sua crise económica e social interna. Há muito desemprego, muito trabalho precário, crescimento fraco, é este o drama. É a ameaça à segurança da classe média que faz com que as pessoas queiram menos Europa e comecem a votar contra ela, como aconteceu na França e na Holanda e, potencialmente, noutros países, como a Alemanha, caso tivessem feito referendos sobre a Constituição. Neste momento, todos os governos europeus têm medo de defender a Europa, por motivos eleitorais internos.
Também acha que a crise de liderança na UE explica esta situação?
Sim, há uma crise de liderança, mas pior é a crise intelectual. Não há consenso sobre a análise das razões que explicam a existência de tais níveis de trabalho precário e de desemprego nos nossos países. E é preciso compreender que quando a classe média tem medo de ser desestabilizada tudo é possível. A desestabilização da classe média é um drama para os políticos. A Europa apenas pode recuperar o seu dinamismo quando responder a este problema. E, uma vez feita a análise, estabelecido um consenso intelectual à volta do problema, é preciso haver liderança para o ultrapassar. Mas não há liderança possível no vazio.
Afirmou que a Europa política está morta...
O projecto constitucional está morto...
A Europa soft power é a melhor via...
Quando falamos de Europa política falamos da possibilidade diplomática, militar, para fazer uma política rápida, decidida por maioria, que fosse eficaz e pesasse no mundo. Isto tornou-se impossível pelo simples facto de que toda a acção de política externa exige a unanimidade, desde o Tratado de Maastricht. Então, o assassínio da Europa política resulta da soma dos tratados de Maastricht, Amesterdão, Nice e, mesmo agora, o projecto de Constituição europeia. Nesta situação, eu observo, por outro lado, uma coisa diferente, que o hard power não é tão eficaz como pensamos, que os Estados Unidos estão envolvidos em políticas sem saída e com maus resultados, que a única coisa satisfatória é a Europa, ela mesma. Isso são coisas que resultam da confiança mútua, da negociação, que relevam da categoria de soft power. Mas não são um substituto.
O que pensa da ideia da chanceler alemã, Angela Merkel, sobre uma aliança atlântica económica entre a Europa e os Estados Unidos?
Eu sou a favor de todas as boas concertações, mas não seremos capazes de reforçar a cooperação transatlântica enquanto não houver um acordo entre os EUA e nós, enquanto eles não tratarem do seu desequilíbrio financeiro, pois a dívida externa norte-americana já ultrapassou um bilião de dólares. É de uma instabilidade terrível. Nós podemos fazer acordos entre países e entre continentes para um futuro mais estável e visível, mas, antes, é preciso resolver esta situação de défice. Acho que é por aí que se deve começar, mas, de qualquer forma, desejo boa sorte à senhora Angela Merkel.
*O DN viajou a convite da Comissão Europeia