Blog pessoal criado em 2003
30 de Março de 2009

LUÍS FILIPE MALHEIRO
Europa nervosa...

Continuo a pensar, gostem ou não de ouvir, que num cenário eleitoral de abstenção significativa devemos questionar a legitimidade dos eleitos, já que a problemática da “representatividade” dos eleitos de certeza que nem se discute.

Quando em 2008 se assistiu à pouca vergonha de vermos uma União Europeia, ainda por cima em vésperas de eleições – e portanto em vésperas de nova pedincha de votos e/ou de distribuição de tachos (veja-se o que se passa com Barroso e nem as eleições se realizaram ainda!) – aldrabar o eleitorado europeu e, numa cumplicidade combinada nos gabinetes da nomenclatura comunitária, com todos os país (salvo a Irlanda devido à obrigação constitucional de realizar um referendo) empenhados numa estratégia de silêncio e numa descarada campanha de ocultação da divulgação, como era seu dever e obrigação, do Tratado de Lisboa, em todas as suas componentes, implicações e consequências a médio ou longo prazo, facilmente se constatou que esse comportamento hipócrita e nojento tinha que mudar em 2009, quando os que estavam então no poleiro precisassem dos votos do povo par a que não fossem derrotados.

O problema da Europa nos tempos que correm, reconhecidamente, tem a ver com a mediocridade generalizada ao nível da sua cúpula dirigente, bem como na quase totalidade dos estados-membros, na medida em que estamos perante uma Europa que se debate com a falta de líderes políticos, carismáticos e fortes, que cumpram as suas obrigações perante o povo, que não tenham medo de dar ao povo a possibilidade de se pronunciarem em liberdade. Tal como não é no fascismo idiota e absurdo, próprio de anormais como Le Pen, que a Europa e os europeus de revêem, de certeza que muito menos o conseguirão perante um manto de silêncio generalizado, de compadrio político intolerável, que caracteriza as actuais lideranças. Os europeus precisam de saber o que é o Tratado de Lisboa, porque insistem em considerá-lo importante, que mudanças tratará à União e aos europeus, que implicações dele resultam, etc. Os europeus não precisavam que os dirigentes europeus fugissem traiçoeiramente às suas responsabilidades, recusassem envolver-se numa campanha pública de divulgação e de debate, para optarem pela via mais fácil de imposição, por via parlamentar, de um documento que pelos vistos pode nem sair do papel. A crise colocou a União de rastos e ameaça reduzir a escombros o Tratado. E como se tudo isso não bastasse até temos o país que lidera a União – a República Checa – mergulhado numa crise política que derrubou o governo, que provavelmente vai implicar eleições nacionais antecipadas, porque não se conseguem entender quanto à posição que o país deve assumir relativamente ao “milagreiro” Tratado de Lisboa.

Recordo que no caso de Portugal, a votação na Assembleia da República, ás escondidas do povo, registou a maioria de votos favoráveis – PS, PSD e CDS/PP, cerca de 90% dos eleitos. A esquerda dos socialistas, PCP e os seus aliados “Verdes”, o Bloco de Esquerda e os deputados Luísa Mesquita (ex-PCP) e Pedro Quartin Graça (líder nacional do PT) votaram contra. A 9 de Maio de 2008, Dia da Europa, Cavaco Silva, satisfeito, como facilmente se adivinha, assinou a promulgação do Tratado de Lisboa, tornando-se então Portugal torna-se assim, o 9º estado-membro a ratificação o documento por via parlamentar.

Quanto a resultados eleitorais, Portugal não é excepção. As europeias são, regra geral, as eleições menos atractivas e, portanto, aquelas que registam maiores índices de abstenção:

1999

Inscritos 8.600.643
Votantes 3.465.301 (40,3%)
Abstenção 5.135.342 (59,7%)
PS 1.491.963 (43,1%), 12 deputados
PSD 1.360.593 (39,3%), 11 deputados

2004
Inscritos 8.748.600
Votantes 3.394.356 (38,8%)
Abstenção 5.394.356 (61,2%)
PS 1.511.214 (44,5%), 12 deputados
PSD 1.129.072 (33,3%), 9 deputados

Continuo a pensar, gostem ou não de ouvir, que num cenário eleitoral de abstenção significativa devemos questionar a legitimidade dos eleitos, já que a problemática da “representatividade” dos eleitos de certeza que nem se discute.
Incomodados com esta realidade, tanto o Parlamento Europeu como a Comissão, desdobram-se em iniciativas de propaganda destinadas a mobilizar os europeus, caindo nalguns casos num rol imenso de baboseiras, tratando-nos a todos como se fôssemos uns anormais. As patéticas “dez boas razões para votar” são disso exemplo, do que a idiotice é capaz. É que o problema de fundo, ressalvando o da ausência de líderes fortes, tem a ver com a incompetência da União Europeia em resolver a crise que afecta todos os europeus e que faz com que tenhamos mais de 20 milhões de desempregados no continente!
É neste contexto, onde começa a ser patente o nervosismo dos partidos – pressionados pela crise económica e social grave que desmotiva os europeus e que os afasta cada vez mais do projecto europeu, graças ao falhanço das políticas se à incompetência dos dirigentes europeus, que nos aproximamos de 7 de Junho, dia das europeias em Portugal, na certeza quase absolutas de que vamos repetir o cenário anterior, provavelmente agravá-lo, o de que teremos mais um acto eleitoral com as atenções quase superam a dobrar os votantes. Mas pelos vistos é assim que se constrói a tal Europa de que todos falam...

http://ultraperiferias.blogspot.com
publicado por Pedro Quartin Graça às 07:04

CorretorEmoji

Comentar via SAPO Blogs

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

Este blog tem comentários moderados.

Este blog optou por gravar os IPs de quem comenta os seus posts.

Março 2009
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
18
19
21
22
23
24
25
26
27
28
Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

subscrever feeds
Posts mais comentados
11 comentários
11 comentários
10 comentários
7 comentários
6 comentários
5 comentários
5 comentários
5 comentários
4 comentários
4 comentários
mais sobre mim
pesquisar neste blog
 
últ. comentários
Com o relvas à ilharga só pode perder!
Não ao servilismo em relação a outros estados; sim...
Considero este texto extremamente rico, ao abordar...
Só uma palavra: concordo!
Obrigado pelo seu comentário.PQG
Lembro-me perfeitamente desse dia trágico: a surpr...
É lamentável, cada vez dou-Lhe menos crédito. Mona...
De acordo com os seus pressupostos mas....como diz...
Caro Dr. Pedro Quartin Graça, em obrigação para co...
Muito lhe agradeço a sua atenção! Parabéns!