Blog pessoal criado em 2003
06 de Maio de 2007



É português, cineasta e faz quase tudo sozinho

HUGO GONÇALVES, Madrid
D.R. (imagem)

No percurso de 11 anos que levou Filipe Araújo de estudante de Jornalismo, em Lisboa, até Espanha, onde o seu documentário Selvagens: a Última Fronteira, participa por estes dias no festival Documenta Madrid, não faltam acontecimentos improváveis.

Com o entusiamo dos contadores de histórias, Filipe reforça os pormenores que o puseram numa ilha quase deserta: "Nas Selvagens, que está a um dia de viagem de barco da Madeira, só costuma haver dois vigilantes. Mas um grupo de pescadores furtivos tinha feito ameaças com arpões e, durante um tempo, os fuzileiros mudaram-se para lá. Nós fomos na fragata que ia buscá-los."É difícil chegar a essas ilhas (duas rochas, a maior delas com 250 hectares); são o ponto mais a sul do território português, a trinta graus do Equador, e mais perto de Tenerife do que do Funchal.

Os vigilantes são rendidos de três em três semanas e é preciso uma autorização do Parque Natural para lá entrar. Num sábado de 2006, ligaram a Filipe Araújo, dizendo-lhe que tinha dois dias para embarcar na fragata. "Quando chegámos, com a ilha coberta pelo nevoeiro, pensei: 'Como vou fazer um filme num sítio onde não se passa nada?' Desembarcámos e disseram-me que não havia electricidade para carregar as baterias da câmara, porque o céu estava nublado e a energia solar não funcionava."

O acaso, esse salto mortal narrativo, apareceu outra vez diante de Filipe: "Foi uma das alturas mais povoadas da ilha. Costumam lá viver apenas os vigilantes mas, nesses dias, estavam connosco três faroleiros, para fazer a manutenção anual do farol, um biólogo que estuda a maior colónia mundial de cagarras, uma funcionária do Parque Natural, o vice-presidente da Assembleia Regional da Madeira, os donos da única propriedade privada das Selvagens e uma cadela que, por viver longe de tudo, nem sequer cheira a cão." Se Filipe, com 30 anos, recua no tempo para contar a sua própria história, reaparecem mais acasos numa história que começa com um estágio n' A Capital, passa por um programa de Erasmus numa universidade em Roma, outro estágio (na RAI), um trabalho na Clix, já depois do regresso a Portugal, e pela escrita para diferentes publicações. Um dia, comprou uma câmara, um iBook e um programa de software para editar imagens: "Gostava de cinema, embora não soubesse nada de técnica. Mas tenho formação musical. Queria experimentar vários suportes ao mesmo tempo e comecei a fazer curtas-metragens, sempre em esquema de guerrilha, com o mínimo dos recursos, uma produção da casa."

Dessas experiências, resultaram C-mail e A Aldeia do Viagra , que foram exibidos em festivais e que lhe deram incentivo para continuar. Em 2006, chegou às Selvagens com o jornalista Micael Pereira e o fotógrafo José Ventura, que preparavam uma reportagem para o Expresso. Filipe era a sua própria (e única) equipa de filmagem, e recebeu o apoio dos repórteres, que o ajudaram na recolha de imagens ou a colocar o microfone no meio das rochas.

As ilhas garantem a Portugal mais 300 kms de zona económica exclusiva. Só que, além destas curiosidades, Filipe não sabia se teria uma história. O acaso (da sobrepopulação naqueles dias) proporcionou-lhe um documentário de 30 minutos. "Levei dois livros, imprensa estrangeira e nacional, um iPod, mas não deu tempo para nada. Pescámos, fizemos pão, conhecemos a ilha. Com aquela gente toda ali, que não se conhecia, o documentário tinha a potencialidade de um Brig Brother (risos)". Montou várias horas de imagens antes de se mudar para Madrid, no ano passado, cidade onde faz agora um mestrado em realização para documentários. Pediu à irmã, professora no Hotclub, para compor a banda sonora.

O filme passou na SIC Notícias e, a par de uma co-produção luso-espanhola, é o único documentário português escolhido para concorrer no Documenta Madrid. Passou ontem e repete na terça-feira. Filipe gosta dos acasos, de justificar as boas histórias que encontra com golpes de sorte. Mas, como defende o próprio campeão literário da improbabilidade, Paul Auster, nem tudo é apenas a música do imprevisto: "As boas histórias só aparecem a quem sabe contá-las."
_________________________
Nota: Devemos a Filipe Araújo, a Micael Pereira e a José Ventura o reconhecimento necessário a quem, através desta reportagem, muito ajudou a, por um lado, dar a conhecer a parte mais desconhecida do território nacional; por outro, o facto de, através da sua imagem e texto, terem ajudado à preservação de parte do nosso território como "terra portuguesa" e, dessa forma, terem contrubuido decisivamente para o reforço da nossa soberania enquanto Nação independente. A eles o nosso "Bem Haja"!
Pedro Quartin Graça
publicado por Pedro Quartin Graça às 08:21

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